quarta-feira, 21 de junho de 2017

Relato do Encontro de Outono de 2017: patriarcado, mistérios das deusas sumerianas e egípcias



“[...] em relação aos símbolos: eles não se referem a eventos históricos; eles se referem, através de eventos históricos, a princípios espirituais ou psicológicos e forças de ontem, hoje e amanhã, e que estão em todo lugar” (CAMPBELL, 2015, p.86).

O segundo encontro do ano promoveu a continuidade do estudo voltado para o mais recente livro lançado em português do mitólogo estadunidense Joseph Campbell (1904- 1987). Trata-se de Deusas: os mistérios do divino feminino (editora Palas Athena, 2015).
O encontro realizado na cidade de Cotia, São Paulo, contou com a participação da psicoterapeuta Ana Maria Galrão Rios que abordou e desenvolveu aspectos relacionados aos capítulos três, O Influxo Indo-Europeu, e quatro, Deusas Sumérias e Egípcias da obra de Campbell.
Aprofundando a temática, Rios apresentou sua dissertação de mestrado, concluída em 2008, intitulada Um estudo junguiano sobre a imagem de Deus das crianças num contexto cristão. O trabalho foi desenvolvido com alunos do ensino fundamental e médio e buscou observar a imagem de Deus nas crianças de diferentes faixas etárias (RIOS, 2008).
De antemão a palestrante aponta para as relações entre a construção da imagem do Deus Judaico/Cristão com a construção da imagem concebido pelas crianças. O Deus Judaico/Cristão é aquele que cria o ser humano a partir de seu desejo e que possui uma relação com sua criação demonstrando raiva, bondade, amor, tristeza ou até mesmo punindo.
A imagem de um Deus participativo é construída no imaginário infantil nos primeiros anos de vida conforme as relações que as mesmas desenvolvem com seus pais. Sendo assim, Deus é representado como benevolente, bravo, amoroso ou não, perante a imagem e semelhança que as crianças possuem de seus pais.
Rios afirma que o cérebro humano vive sobre um imperativo cognitivo (imperativo semelhante ao desenvolvido pelo filósofo do século XVIII Immanuel Kant), ou seja, os humanos sempre buscam saber e explicar os fenômenos. Não importa a complexidade da explicação, o cérebro cria um enredo e, se necessário, um mito para preencher as lacunas.
Na concepção da palestrante, os mitos que acreditamos moldam a forma com que nos relacionamos com a vida desde os primórdios.
A construção da imagem de Deus é concebida em crianças de forma distinta conforme cada idade. Segundo a pesquisadora, elas passam por quatro ciclos arquetípicos do desenvolvimento: matriarcal,  patriarcal, de alteridade e cósmico.
No ciclo matriarcal a criança se percebe como centro, não somente do próprio mundo, mas do mundo enquanto tal.  Deus é construído à imagem da criança e, portanto, é um Deus que brinca (FIG.1).

Figura 1: Deus que brinca
Fonte: RIOS, 2008

                       

O ciclo patriarcal é responsável por fixar o símbolo do divino no imaginário da criança. Valores como ordem, disciplina, autoridade e justiça se manifestam nos desenhos; as imagens e símbolos se fixam e codificam conforme os padrões culturais onde a criança está inserida (FIG.2).
Figura 2: Jesus crucificado
       Fonte: RIOS, 2008

 
A percepção da existência e importância do outro ocorre no ciclo da alteridade. Nele, as escolhas são baseadas não apenas no próprio sentimento, mas também no sentimento do outro (FIG.3). Um exemplo desse ciclo são as festas de aniversários organizadas pelos próprios adolescentes (12-14 anos), que enfrentam dificuldades em convidar amigos e deixar de fora alguns colegas devido aos conflitos que naturalmente permeiam grupos nessa faixa etária.

Figura 3: Deus branco e negro, consciência e compreensão das diferenças
Fonte: RIOS, 2008
  
É por meio do ciclo cósmico que as polaridades transcendem e há uma percepção de tudo como um todo único que está em permanente mutação.

 
Figura 4: Jesus Cristo rezando por todos
Fonte: RIOS, 2008

                                        

Rios aponta para a importância de se compreender que tanto o patriarcal, quanto o matriarcal possuem pontos positivos e negativos. A polaridade negativa se apresenta quando há um uso excessivo dessas características.
Inanna, deusa da Suméria
Fonte: Pinterest
O ciclo patriarcal, por exemplo, age segundo um futuro previsto, sendo aquele que defende, cuida e que é justo, o que garante a ordem e a lealdade. É por meio do patriarcado, portanto, que há leis que garantem a sobrevivência da espécie humana, permitindo uma organização que favorece toda a sociedade.
Em contrapartida, o matriarcal funcionaria melhor em pequenos grupos já que seu interesse está relacionado à pertinência, continência e sobrevivência.
Nessa perspectiva, o feminino em um sistema patriarcal abusivo pode ser posto em condição de submissão para sobreviver. No entanto, apesar das mulheres não possuírem dentro desse sistema uma representação do sagrado de forma direta, a pesquisadora adverte que representações recorrentes a Deusa sempre existiram e estão presentes.
Casamento sagrado: Isis como uma ave de rapina sobre
Osiris morto no mito da geração de Hórus 
Abordando as representações da Deusa no capítulo quatro, Deusas Sumérias e Egípcias da obra de Campbell, Ana comenta os mitos de Inanna, Isis e Maat. Interpretando as narrativas pela perspectiva da psicologia analítica, a palestrante lembra que Inanna e Isis estão relacionadas ao mito do casamento, enquanto Maat à justiça.
Como afirma Ana, o masculino e o feminino são polaridades encontradas em todos os seres humanos e o abuso de um sistema, seja qual ele for, é prejudicial.
Maat, a deusa egípcia
da Justiça: pena como símbolo
As narrativas míticas são encontradas em todas as partes, nas palavras da psicoterapeuta Ana Maria Galrão Rios: “Os deuses vão nos visitar através dos símbolos” e para Joseph Campbell (1904- 1987): “[...] quando o masculino entra, há divisão, ao passo que, quando o feminino entra, cria-se a união” (2015, p.122). Mas é somente quando ambos estão em relação que há a possibilidade de alteridade e, no vocabulário da psicologia analítica, transcendência, no sentido dialético de a soma das partes ser maior que o todo.

Por Vanessa Heidemann


Referências

CAMPBELL, J. Deusas: os mistérios do divino feminino. São Paulo: Palas Athena, 2015.

RIOS, A. M. G. “Um estudo junguiano sobre a imagem de Deus das crianças num contexto cristão”. 2008. 256 f. Dissertação (Mestrado) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em:



segunda-feira, 8 de maio de 2017

17/6 - 14h - Encontro de Outono do Núcleo Granja Viana-SP da Fundação Joseph Campbell



É com satisfação que convido para nosso segundo encontro de 2017, que será realizado no sábado 17/6, a partir das 14h. 

We are pleased to invite you to join our Autumn Roundtable, which will be held on June 17, 2017, 2pm. 

Dedicaremos este ano ao estudo do mais recente livro de Joseph Campbell lançado em português no Brasil: Deusas: o mistério do divino feminino (Editora Palas Athena).  

In 2017 we are working on the newest Joseph Campbell´s book translated to Portuguese in Brazil: Goddesses: mysteries of the divine feminine (Palas Athena Publisher).

A palestrante será a psicoterapeuta Ana Maria Galrão RiosDoutora e Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2008), na área de Estudos Junguianos. Especialista em Psicologia Clínica, atua principalmente nos temas de desenvolvimento psicológico, psicologia analítica, calatonia, trabalho corporal em psicoterapia e Jung. Pertence ao corpo editorial da Revista Hermes. 

The speaker will be the psychotherapist Ana Maria Galrão Rios. Rios holds a PhD in Clinical Psychology (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008), being an specialist in analytical psychology and calatonia, among other subjects. She serves as an editorial board advisor to Hermes Journal.

Na oportunidade, trabalharemos o capítulo 3 (O influxo indo-europeu) e o capítulo 4 (Deusas Sumérias e Egípcias) (páginas 91 a 135). 

She was invited to present her vision on the Chapter 3 (The Indo-European Influence) and Chapter 4 (Sumerian and Egyptian Goddesses) (pages 91 to 135).

O evento é gratuito, mas solicitamos a doação de um quilo de alimento não perecível por participante para o espaço paroquial. 

The event is free of charge, but we request the donation of one kilo of non-perishable food per participant to the parish.

Leve também frutas, doces, salgados ou sucos para compartilhar no lanche comunitário de encerramento, realizado às 16h30. 

Also be welcome to bring fruits and other healthy food or juices to share in the community closing gathering, held at 4:30 p.m.


Relembrando o local: Igreja Santo Antonio (Rua Santo Antonio, 486 (km 24 da Rodovia Raposo Tavares, sentido São Paulo›Cotia). Acesso pela Rua José Félix de Oliveira (Entrada pela secretaria localizada na lateral da igreja, em frente ao Banco Bradesco). Para ver no Google Maps, clique aqui

Venue: Santo Antonio Parish (Rua Santo Antonio, 486 (km 24 of the Raposo Tavares Highway, direction São Paulo> Cotia) Access by José Félix de Oliveira Street (Entrance by the office located on the side of the church, in front of Banco Bradesco). 

Abraços/Best

Monica Martinez
Coordenadora da JCF Mythological Roundtable® Granja Viana-SP (Brasil)*

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Relato do Encontro de Verão de 2017: os mistérios do divino feminino



“Certa vez li sobre uma antiga maldição chinesa: ‘Que você renasça numa época interessante!’ A nossa época é uma época muito interessante: não há modelos para nada do que está acontecendo. Tudo está mudando, mesmo a lei da selva masculina. É um tempo de queda livre para dentro do futuro, e cada um ou cada uma deve criar seu próprio caminho. Os modelos antigos não estão funcionando, os novos não apareceram ainda. De fato, nós mesmos é que estamos modelando o novo segundo a forma de nossas vidas interessantes. Joseph Campbell

Ao iniciar um novo ciclo de estudos acerca das narrativas míticas, contamos com a presença da psicoterapeuta Leda Maria Pirillo Seixas, professora do curso de Psicologia na Faculdade de Ciências da Saúde da PUC-SP.  
Nesse primeiro encontro de 2017, foram discutidas as três primeiras partes (introdução, capítulo 1 e 2) do livro do mitólogo estadunidense Joseph Campbell (1904- 1987), lançado em 2015 em português no Brasil pela editora Palas Athena, Deusas: os mistérios do divino feminino (CAMPBELL, 2015)
Com o desenvolvimento das sociedades modernas e da tecnologia, os mitos são muitas vezes tidos como algo que permaneceu no passado, como histórias ou mentiras. Esse tipo de interpretação privilegia uma visão que tende a excluir os mitos do contexto dos estudos das narrativas nos dias atuais. Contudo, nas palavras da professora Leda Seixas, eles apenas mudaram de face.
Segundo ela, existem exemplos atuais de mitos que ainda norteiam a nossa existência, como a ciência, a política e a economia, que podem ser considerados os novos deuses poderosos que estão presentes em nosso cotidiano.
Assim, abordar o masculino e o feminino em nossa sociedade pode ser tarefa complexa, já que o papel de ambos passa por transformações. Entre os povos primevos, ancorados numa perspectiva mais biológica, existia uma clara distinção de cada um desses arquétipos, visto que o homem era aquele que caçava, sustentava e protegia, enquanto a mulher era a que transformava. Essa noção era baseada no corpo da mulher, tido como mágico, pois que “repentinamente” dava origem à uma nova vida. Isso porque não havia ainda a compreensão da importância do papel do homem relacionado à reprodução.
O corpo feminino, então, era associado à terra, às cavernas, aos mistérios do nascimento, da morte e do renascimento. Não por acaso, os primeiros cultos ao feminino estavam voltados para questões de vida e morte.
Carl Gustav Jung (1875-1961), pai da psicologia analítica, desenvolveu uma abordagem baseada nos arquétipos do feminino e masculino, onde a Anima é entendida como o princípio feminino no inconsciente do homem e o Animus o princípio masculino no inconsciente da mulher. Segundo a professora, desde então essas noções propostas por Jung estão sendo ampliadas e desenvolvidas por outros especialistas do campo.
A própria psicoterapeuta sugere tentar compreender essa dualidade por meio da direção ou forma de energia, onde o princípio masculino representaria o Logos, ou seja, a razão e a objetividade, e o princípio feminino o Eros, não no sentido sexual, mas de relação entre as coisas, de conexões.
Ao longo da evolução histórica, sobretudo nas últimas décadas, o papel social da mulher se transformou devido às guerras – que levou à diminuição dos homens na sociedade, possibilitando às mulheres trabalhar fora de suas casas – e ao avanço tecnológico, da pílula anticoncepcional ao desenvolvimento dos eletrodomésticos, que liberou a mulher de muitas funções relacionadas à manutenção da casa e da família.
Para Leda Seixas, o primeiro movimento da mulher na sociedade moderna foi o de competir com o homem para conseguir um lugar na sociedade – processo que levou as mulheres a imitarem o comportamento masculino. Segundo ela, hoje “não possuímos mais parâmetros. Os papeis tradicionais foram rompidos e, ao mesmo tempo em que isso é interessante, é muito difícil, já que cabe a cada um tentar descobrir o que fazer com sua própria vida”.
Nesse contexto, a professora afirma que há uma evolução de comportamento e que a partir de agora as mulheres devem passar a tentar buscar mais sua essência feminina e a forma que elas podem contribuir com sua feminilidade para com o mundo. Isso porque a imagem e a força do arquétipo do feminino permanecem.
Além disto, existiram mitos que incluem outras variações dessas imagens arquetípicas, como o do hermafrodita. Um desses mitos é relatado por Platão (428/427 - 348/347 a.C) em sua obra O Banquete (PLATÃO, 1991), por meio do diálogo de Aristófanes que explica como esses seres seriam originalmente. Segundo Platão, tratava-se de seres duplos e esféricos, que possuíam dois pares de cabeças, quatro pernas e quatro braços. Eles seriam divididos em três sexos. Um seria constituído por duas metades masculinas (os filhos do Sol); outro por duas metades femininas (as filhas da Terra); e o terceiro seria andrógino, metade feminina, metade masculina (os filhos da Lua).
Como se voltaram contra os deuses, a fim de acabar com sua intemperança e arrogância Zeus cortou-os em dois, dividindo-os. Esse mito explicaria a eterna necessidade das pessoas de buscarem uma completitude no outro, bem como a nostalgia do tempo em que o feminino e o masculino teriam vivido em comunhão, em totalidade. 
Quando questionada sobre esse mito ser a representação da eterna busca pela ´tampa da panela´, a professora adverte que os mitos apontam para além do aspecto racional: “O mito não é uma expressão literal da realidade, pois ele se expressa de uma maneira simbólica”.
Para finalizar, Leda Seixas lembrou que o “feminino é um todo que é multifacetado”. Assim, a mulher é associada ao mistério, à mágica e à natureza. Por isso, mesmo no contexto contemporâneo que privilegia os valores do masculino, a mulher deveria se voltar para si mesma para reconhecer toda a sua força. Para ela, a “sabedoria da coruja está em ser coruja”, frase que leu na lousa da escola primária e nunca mais esqueceu.

Texto: Vanessa Heidemann, mestranda do Programa de Comunicação e Cultura da Uniso.


Referências
CAMPBELL, J. Deusas: os mistérios do divino feminino. São Paulo: Palas Athena, 2015.

PLATÃO. Diálogos: o banquete, Fédon, Sofista, Político. 5. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

terça-feira, 28 de março de 2017

1/4 - 14h - Encontro de Verão do Núcleo Granja Viana-SP da Fundação Joseph Campbell



É com satisfação que finalmente convido para nosso primeiro encontro de 2017, que será realizado no  sábado 1/4, a partir das 14h. 

Dedicaremos este ano ao estudo do mais recente livro de Joseph Campbell lançado em português no Brasil: Deusas: o mistério do feminino (Editora Palas Athena).  

A palestrante será a psicoterapeuta Leda Maria Pirillo Seixas. Professora do curso de Psicologia na Faculdade de Ciências da Saúde da PUC-SP e do curso Jung e Corpo do Instituto Sedes Sapientiae , ela é mestre em Psicologia Clínica pela mesma instituição, especialista em psicoterapia junguiana, cinesiologia, calatonista e editora da Revista Hermes. 

Na oportunidade, trabalharemos a Introdução (Sobre a Grande Deusa), o capítulo 1 (Mito e o Divino Feminino) e o capítulo 2 (Deusa mãe criadora: neolítico e início da idade do bronze (páginas 17 a 88). 

O evento é gratuito, mas solicitamos a doação de um quilo de alimento não perecível por participante para o espaço paroquial. 

Leve também frutas, doces, salgados ou sucos para compartilhar no lanche comunitário de encerramento, realizado às 16h30. 


Relembrando o local: Igreja Santo Antonio (Rua Santo Antonio, 486 (km 24 da Rodovia Raposo Tavares, sentido São Paulo›Cotia). Acesso pela Rua José Félix de Oliveira (Entrada pela secretaria localizada na lateral da igreja, em frente ao Banco Bradesco). Para ver no Google Maps, clique aqui

Até lá!

Monica Martinez
Coordenadora da JCF Mythological Roundtable® Núcleo da Granja Viana-SP (Brasil)*
http://fundacaojosephcampbell.blogspot.com
https://www.facebook.com/groups/177343475613567