sexta-feira, 19 de julho de 2019

6/7 - Relato do encontro de outono de 2019: A questão dos relacionamentos


Tristão e Isolda



Assim, pelos olhos, o amor atinge o coração:
Pois os olhos são os espiões do coração.
E vão investigando
O que agradaria a este possuir.
E quando entram em pleno acordo
E, firmes, os três em um só se harmonizam,
Nesse instante nasce o amor perfeito, nasce
Daquilo que os olhos tornaram bem vindo ao coração.

Gutraut de Borneilh (1138-1200?)

O primeiro encontro de 2019, da Roundtable Granja Viana (SP) da Fundação Joseph Campbell, aconteceu no dia 7 de setembro e contou com a participação do psicólogo junguiano Camilo Ghorayeb que abordou as questões dos relacionamentos.

Utilizando como texto base o Capítulo 7 (Histórias de amor e matrimônio) do livro O Poder do Mito (Palas Athena) de Joseph Campbell, Ghorayeb – mestre em Psicologia Profunda pela Pacifica Graduate Institute e professor na Associação Palas Athena – contextualizou o desenvolvimento do olhar ocidental em relação ao masculino e ao feminino desde a transição do período Paleolítico para o Neolítico.

No período Paleolítico, os homens eram responsáveis pela caça que possibilitava  a sobrevivência dos grupos. Desta maneira, era o masculino que desenvolvia um papel mais agressivo e se destacaria em relação ao feminino.

Já a partir do período Neolítico o ser humano, ao se estabelecer em locais fixos e passar a cultivar alimentos, em áreas abundantes em água, deu início às primeiras grandes civilizações (Mesopotâmia, Egito, Índia, China). Segundo o professor convidado no curso de especialização em psicologia analítica pela Unicamp e no curso de formação de analistas Junguianos pelo IPAC, naquele período houve uma transição no comportamento humano, na qual a agressividade utilizada para a caça pelos homens não era mais necessária perante a espera do plantio.

A compreensão dos ciclos naturais e o domínio da agricultura teriam gerado civilizações pacíficas com um sistema de valores. O papel da mulher nesse processo ganhou destaque pela analogia com a terra fértil, que gera. Essas civilizações agrícolas possuíam uma relação comunitária, na qual o coletivo prevalecia em relação ao indivíduo. 

O olhar poético e mítico explicava os fenômenos naturais, gerando encantamento e espanto.  Nesse período o ser humano compreende que o velho é devorado pelo mundo, que a vida se alimenta da vida e que os processos naturais são cíclicos. O mundo é compreendido, portanto, a partir de um arrebatamento estético.

Com o início das invasões de povos mais agressivos, que utilizavam a violência para dominar, teria se iniciado a transformação do pensamento coletivo para o individual.

Por isso Ghorayeb pontua que no Ocidente a relação entre o indivíduo e o coletivo é marcante, diferente do que ocorre no Oriente – que ainda privilegia o coletivo frente ao indivíduo.

Neste contexto, no decorrer do desenvolvimento das civilizações, os relacionamentos que uniam homens e mulheres não possuíam como característica o amor pessoal, de um indivíduo para outro. Antes os casamentos/uniões eram realizados por convenções sociais que visavam a manutenção da posse de terras e riquezas, bem como a manutenção da parceria amorosa como fundação para o próprio núcleo familiar.

Na Idade Média as relações amorosas passam a ganhar uma característica pessoal a partir da influência dos trovadores. Este é um ponto importante da compreensão da obra do mitólogo estadunidense Joseph Campbell (1904-1987). O trovador exalta as características individuais de sua amada, reconhecendo que o ato de amar apesar de envolver a dor vale a pena. Essa construção do relacionamento amoroso pode ser observado na história de Tristão e Isolda, que se apaixonam e assumem todos os riscos e dores para viver seu amor.

Segundo Ghorayeb, para Joseph Campbell esse período do Trovadorismo inicia o reconhecimento da dor da vida. “O amor me toca e me faz sofrer e ainda assim por ele vale a pena viver mesmo que o fim seja o inferno”. Não por acaso, o amor ou paixão entre indivíduos – diferentemente das uniões convencionadas socialmente – era considerado uma contravenção, logo um pecado na Idade Média, pois estava relacionado ao divino (espiritual) e não meramente ao terreno (carnal).

Fazendo um paralelo entre o pensamento de Joseph Campbell e do psiquiatra Gustav Carl Jung (1975-1961), idealizador da Psicologia Junguiana ou Profunda, Ghorayeb aponta que o desejo do trovador por uma mulher em específico gerava tensão que é a base da própria vida: “Não somos nós que vivemos a vida, é ela que nos vive”. Esse amor do trovador pode ser associada à ideia de bem aventurança proposta por Campbell e, naturalmente, ao tema pelo qual ele é mais conhecido no mundo todo – o chamado do herói ou heroína.

Segundo o palestrante, seguir sua maior dor, suas angústias e frustrações é um caminho de transformação para o indivíduo, pois a consciência não se altera por inércia É a partir de uma dada tensão que o inconsciente pode irromper novos conteúdos, promovendo ajustes/flexiblizações no ego.
O amor por um indivíduo não é, portanto, uma escolha. Ele acontece quando menos se espera, ele te “rouba”. Os trovadores compreenderam que, ainda que a angústia e a dor faça parte do amor, é nele e por ele que a vida se torna plena.

Uma relação, portanto, exige sacrifícios – lembrando-se que a raiz etimológica desta palavra remete a sacro, sagrado. Para Gorayeb, as relações são como a vida, ou seja, devemos aceitar as situações com suas tensões e escolher uma verdadeira participação perante os chamados: “Sem tensão não existe morte e renascimento”.

Com a abertura para a roda de bate papo os participantes questionaram os relacionamentos amorosos de Jung e de Campbell. 

Joseph Campbell foi casado com a dançarina e coreógrafa Jean Erdman e por meio de seus relatos demonstrava ter um casamento sólido e “ideal”. Gustav Carl Jung se uniu a Emma Jung, cuja parceria intelectual e prosperidade financeira foi em grande parte um dos pilares de seu sucesso como psicoterapeuta.  Entretanto, Camilo lembra que os relacionamentos são únicos e que não há como saber ao certo como eles eram, já que os relatos são parciais e fragmentados. Em tempo: ao seu lado na palestra estava a sua companheira, a também psicóloga Michelle G. Santos.

Por Vanessa Heidemann


Para conhecer um pouco mais do trabalho de Camilo Ghorayeb acesse os links:
Academia de Psicologia Cultural