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Tristão e Isolda |
Assim, pelos
olhos, o amor atinge o coração:
Pois os
olhos são os espiões do coração.
E vão
investigando
O que
agradaria a este possuir.
E quando
entram em pleno acordo
E, firmes,
os três em um só se harmonizam,
Nesse
instante nasce o amor perfeito, nasce
Daquilo que
os olhos tornaram bem vindo ao coração.
Gutraut de
Borneilh (1138-1200?)
O primeiro
encontro de 2019, da Roundtable Granja Viana (SP) da Fundação Joseph Campbell,
aconteceu no dia 7 de setembro e contou com a participação do psicólogo junguiano
Camilo Ghorayeb que abordou as questões dos relacionamentos.
Utilizando
como texto base o Capítulo 7 (Histórias de amor e matrimônio) do livro O Poder do Mito (Palas Athena) de Joseph
Campbell, Ghorayeb – mestre em Psicologia Profunda pela Pacifica Graduate
Institute e professor na Associação Palas Athena – contextualizou o
desenvolvimento do olhar ocidental em relação ao masculino e ao feminino desde
a transição do período Paleolítico para o Neolítico.
No período
Paleolítico, os homens eram responsáveis pela caça que possibilitava a sobrevivência dos grupos. Desta maneira,
era o masculino que desenvolvia um papel mais agressivo e se destacaria em
relação ao feminino.
Já a partir
do período Neolítico o ser humano, ao se estabelecer em locais fixos e passar a
cultivar alimentos, em áreas abundantes em água, deu início às primeiras
grandes civilizações (Mesopotâmia, Egito, Índia, China). Segundo o professor
convidado no curso de especialização em psicologia analítica pela Unicamp e no
curso de formação de analistas Junguianos pelo IPAC, naquele período houve uma
transição no comportamento humano, na qual a agressividade utilizada para a
caça pelos homens não era mais necessária perante a espera do plantio.
A
compreensão dos ciclos naturais e o domínio da agricultura teriam gerado
civilizações pacíficas com um sistema de valores. O papel da mulher nesse
processo ganhou destaque pela analogia com a terra fértil, que gera. Essas
civilizações agrícolas possuíam uma relação comunitária, na qual o coletivo
prevalecia em relação ao indivíduo.
O olhar
poético e mítico explicava os fenômenos naturais, gerando encantamento e
espanto. Nesse período o ser humano
compreende que o velho é devorado pelo mundo, que a vida se alimenta da vida e
que os processos naturais são cíclicos. O mundo é compreendido, portanto, a
partir de um arrebatamento estético.
Com o início
das invasões de povos mais agressivos, que utilizavam a violência para dominar,
teria se iniciado a transformação do pensamento coletivo para o individual.
Por isso Ghorayeb
pontua que no Ocidente a relação entre o indivíduo e o coletivo é marcante,
diferente do que ocorre no Oriente – que ainda privilegia o coletivo frente ao
indivíduo.
Neste
contexto, no decorrer do desenvolvimento das civilizações, os relacionamentos
que uniam homens e mulheres não possuíam como característica o amor pessoal, de
um indivíduo para outro. Antes os casamentos/uniões eram realizados por
convenções sociais que visavam a manutenção da posse de terras e riquezas, bem
como a manutenção da parceria amorosa como fundação para o próprio núcleo
familiar.
Na Idade
Média as relações amorosas passam a ganhar uma característica pessoal a partir
da influência dos trovadores. Este é um ponto importante da compreensão da obra
do mitólogo estadunidense Joseph Campbell (1904-1987). O trovador exalta as
características individuais de sua amada, reconhecendo que o ato de amar apesar
de envolver a dor vale a pena. Essa construção do relacionamento amoroso pode
ser observado na história de Tristão e Isolda, que se apaixonam e assumem todos
os riscos e dores para viver seu amor.
Segundo Ghorayeb,
para Joseph Campbell esse período do Trovadorismo inicia o reconhecimento da
dor da vida. “O amor me toca e me faz sofrer e ainda assim por ele vale a pena
viver mesmo que o fim seja o inferno”. Não por acaso, o amor ou paixão entre
indivíduos – diferentemente das uniões convencionadas socialmente – era
considerado uma contravenção, logo um pecado na Idade Média, pois estava
relacionado ao divino (espiritual) e não meramente ao terreno (carnal).
Fazendo um
paralelo entre o pensamento de Joseph Campbell e do psiquiatra Gustav Carl Jung
(1975-1961), idealizador da Psicologia Junguiana ou Profunda, Ghorayeb aponta
que o desejo do trovador por uma mulher em específico gerava tensão que é a
base da própria vida: “Não somos nós que vivemos a vida, é ela que nos vive”.
Esse amor do trovador pode ser associada à ideia de bem aventurança proposta
por Campbell e, naturalmente, ao tema pelo qual ele é mais conhecido no mundo
todo – o chamado do herói ou heroína.
Segundo o
palestrante, seguir sua maior dor, suas angústias e frustrações é um caminho de
transformação para o indivíduo, pois a consciência não se altera por inércia É
a partir de uma dada tensão que o inconsciente pode irromper novos conteúdos,
promovendo ajustes/flexiblizações no ego.
O amor por
um indivíduo não é, portanto, uma escolha. Ele acontece quando menos se espera,
ele te “rouba”. Os trovadores compreenderam que, ainda que a angústia e a dor
faça parte do amor, é nele e por ele que a vida se torna plena.
Uma relação,
portanto, exige sacrifícios – lembrando-se que a raiz etimológica desta palavra
remete a sacro, sagrado. Para Gorayeb, as relações são como a vida, ou seja,
devemos aceitar as situações com suas tensões e escolher uma verdadeira
participação perante os chamados: “Sem tensão não existe morte e renascimento”.

Joseph
Campbell foi casado com a dançarina e coreógrafa Jean Erdman e por meio de seus
relatos demonstrava ter um casamento sólido e “ideal”. Gustav Carl Jung se uniu
a Emma Jung, cuja parceria intelectual e prosperidade financeira foi em grande
parte um dos pilares de seu sucesso como psicoterapeuta. Entretanto, Camilo lembra que os
relacionamentos são únicos e que não há como saber ao certo como eles eram, já
que os relatos são parciais e fragmentados. Em tempo: ao seu lado na palestra
estava a sua companheira, a também psicóloga Michelle G. Santos.
Por Vanessa Heidemann
Para
conhecer um pouco mais do trabalho de Camilo Ghorayeb acesse os links:
Arquetípica http://www.arquetipica.com.br/?fbclid=IwAR1NSkNKLlBxaH_W4i1EqbkEo1WJkWw8FwdbWPyQeUi8Pote2ZgijrXBOOI
Academia de Psicologia Cultural
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