domingo, 15 de maio de 2016

O relato do encontro de outono de 2016: as raízes celtas da mitologia brasileira


A palestrante Patricia de Aquino com os membro da Roundtable

Encantadora a palestra "O folclore e a mitologia celta irlandesa e as relações com o Brasil", ministrada por Patricia de Aquino, doutoranda em literatura irlandesa contemporânea pelo Programa de Estudos Linguísticos e Literários do Inglês pelo Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo (DLM/USP).

A expansão dos povos celtas
A princípio, a estudiosa abordou as raízes dos celtas, povo da família linguística indo-europeia originário da região da Boêmia, hoje formada pela Áustria, República Tcheca e Romênia. “Os povos celtas não são nórdicos, germânicos nem eslavos”, explica Patrícia.



O alfabeto Ogham
O termo celta deriva de Κελτοί – em grego povo estrangeiro ou secreto, talvez em relação à sua religião – referência atribuída pela primeira vez pelo historiador grego Hecateu de Mileto no século VI a.C.. “Segundo os gregos e romanos, tratava-se de um povo de pele, olhos e cabelos claros, jovial, hospitaleiro e cheio de si, que gostava da caça, de banquetes, tinha uma religião que lhes parecia secreta (o druidismo) e tradição oral – não desenvolveram muito a escrita, salvo o alfabeto Ogham, que pode ser encontrado em monumentos antigos e cuja palavra remete ao deus da Comunicação”, diz Patricia, que integra a Cátedra de Estudos Irlandeses W.B.Yeats/USP. 

A descrição do povo, naturalmente, remete ao seu mais famoso representante contemporâneo, Ásterix, o gaulês, célebre série de histórias em quadrinhos criada na França por Albert Uderzo e René Goscinny em 1959. Ásterix foi inspirado em um grande chefe guerreiro, Vercingetorix, líder da revolta gaulesa contra os romanos em 53 a.C.-52 a.C..


A Gália Cisalpina e o norte da Itália
O povo celta era constituído por várias tribos − bretões, gauleses, batavos, belgas e caledônios, entre outros − que começaram a se espalhar pelo Oeste da Europa no neolítico, ao redor do terceiro milênio a.C.. Uma parte importante de seu território se constituía na Gália, que compreende o atual território da França, além de partes da Bélgica, da Alemanha e do norte de Itália (Gália Transalpina e Cisalpina, isto é, aquém dos Alpes), em especial a Lombardia ocidental (os ínsubres, no que hoje é a região de Milão) e central (os oróbios, em Bérgamo). O auge da cultura foi ao redor de 500 a.C..


Bardos: os narradores da tribo
Como sabemos pela representação de Uderzo e Goscinny, o povo celta era bom de briga – a Gália sempre foi uma dor de cabeça para o Império romano. Havia uma estrutura tribal definida, embora os celtas não fossem particularmente ligados à noção de autoridade – os chefes eram apenas um membro da tribo que ocupava aquela posição no momento. Talvez mais conhecidos – ao menos nas representações midiáticas – eram os sacerdotes (os druidas) e os historiadores oficiais (os bardos), classes que realizavam convenções anuais para comunizar seus saberes, como as conferências contemporâneas. Em termos de relações de gênero, tratava-se de uma cultura igualitária. “As mulheres podiam assumir qualquer posto, sendo bardas e guerreiras”, explica Patrícia, que desenvolve sua pesquisa de doutorado especificamente sobre os celtas da Irlanda sob orientação da Prof. Dra. Laura Izarra.

Celtas na Irlanda
Com o avanço dos romanos, os celtas foram gradualmente migrando para as franjas do império, como a celta ibérica (Portugal e Espanha, caso da região formada hoje por Galícia e países bascos), extremo oeste da Inglaterra (Ilha de Man, País de Gales e Cornualha, terra do mítico rei Arthur), Escócia e Irlanda.

Um dos locais mais propícios para se observar esta cultura é sem dúvida a Irlanda,
As datas festivas celtas
especialmente no sul do país. Segundo Patrícia, em um antigo mito de criação, os irlandeses atuais descendem dos Tuatha de Danaan (os filhos da deusa Danu), o quinto dos seis grupos de habitantes da Irlanda. Ao chegarem, teriam encontrado três filhas da deusa Dagda na praia: Fodla, Banba e Eire, desta última teria surgido o novo nome do local, Eire Land, Ireland. Eles teriam chegado ao primeiro dia de maio, até hoje uma das maiores celebrações celtas, o dia de Beltane, exatamente na metade entre o equinócio da primavera e o solstício de verão, marcando o retorno da estação quente.

As árvores consideradas sagradas
Das tradições irlandesas, destacam-se as fadas, que seriam os descendentes dos povos originários, os Tuatha de Danaaan, especialmente em relação com suas moradas, três árvores das mais sagradas: o carvalho (oak ou Quercus sp.), o freixo-europeu (ash ou Fraxinus excelsior) e o abrunheiro (blackthorn ou Prunus spinosa). Como as fadas irlandesas contêm o lado bom, mas também o mau, por via das dúvidas até hoje os irlandeses preservam estas três espécies de árvores, quando nascidas espontaneamente. Da mesma família, há fadas que vivem no mar e o leprechaun, um homenzinho sapateiro das fadas.


Outra relação contemporânea importante diz respeito ao Halloween, cada vez mais
As lanternas de nabo irlandesas
comemorado no Brasil a partir da experiência estadunidense. Contudo, lembra Patrícia, o Halloween ou Samhain (lê-se soen) é o mais importante festival irlandês, pois marca o fim do verão e, por extensão, o ano novo celta. Segundo esta tradição milenar, no dia 31 de outubro abrem-se os portais entre o mundo material e o mundo espiritual, permitindo o encontro entre luz e trevas, entre vivos e mortos. “É quando ocorre a integração de forças naturais e sobrenaturais”, conta a diretora da ABEI – Associação Brasileira de Estudos Irlandeses. As hoje abóboras (tradição estadunidense) e nabos entalhados (irlandesa) são na verdade proteções contra as almas errantes. 




Cruz celta
Nenhuma palestra sobre folclore irlandês estaria completa sem menção ao trevo. Diz a lenda que o shamrock, em inglês, ou seamróg, em irlandês (Trifolium repens) teria sido usado por São Patricio (387-461) para explicar o conceito da Santíssima Trindade aos irlandeses. Há quem diga que, na verdade, teriam sido os monges irlandeses medievais que teriam usado a plantinha para explicar aos cristãos o conceito celta da triplicidade. Seja como for, o fato é que o diálogo permitiu a coexistência mais ou menos pacífica entre as duas tradições, um exemplo louvado até hoje, entre uma cerveja Guiness e outra, pelos irlandeses.





Texto: Monica Martinez

Bibliografia
GANTZ, J. Early Irish Myths and Sagas. London: Penguin Books, 1981.
GREGORY, Lady. Visions and Beliefs in the West of Ireland. Norfolk, Colin Smyth, 1920.
GREGORY, Lady. Complete Irish Mythology. London: Bounty Books, 1994.
FOSTER. R.F. The Oxford History of Ireland. Oxford: Oxford University Press, 1989.
YEATS, W.B. Irish Fairy and Folk Tales. New York: The Modern Library, 2003.
YEATS, W.B. The Celtic Twilight. Charleston: Bibliobazar, 2008.

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