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A palestrante Patricia de Aquino com os membro da Roundtable |
Encantadora a palestra "O folclore e a
mitologia celta irlandesa e as relações com o Brasil", ministrada por Patricia de Aquino,
doutoranda em literatura irlandesa contemporânea pelo Programa de Estudos
Linguísticos e Literários do Inglês pelo Departamento de Letras Modernas da
Universidade de São Paulo (DLM/USP).
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A expansão dos povos celtas |
A princípio, a estudiosa abordou as raízes dos
celtas, povo da família linguística indo-europeia originário da
região da Boêmia, hoje formada pela Áustria, República Tcheca e Romênia. “Os povos
celtas não são nórdicos, germânicos nem eslavos”, explica Patrícia.
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O alfabeto Ogham |
O termo celta deriva de Κελτοί – em grego povo estrangeiro ou secreto, talvez
em relação à sua religião – referência atribuída pela primeira vez pelo
historiador grego Hecateu de Mileto no século VI a.C.. “Segundo
os gregos e romanos, tratava-se de um povo de pele, olhos e cabelos claros,
jovial, hospitaleiro e cheio de si, que gostava da caça, de banquetes, tinha
uma religião que lhes parecia secreta (o druidismo) e tradição oral – não desenvolveram
muito a escrita, salvo o alfabeto Ogham, que pode ser encontrado em monumentos
antigos e cuja palavra remete ao deus da Comunicação”, diz Patricia, que integra a Cátedra de Estudos Irlandeses W.B.Yeats/USP.
A descrição do povo, naturalmente, remete ao seu
mais famoso representante contemporâneo, Ásterix, o gaulês, célebre série de
histórias em quadrinhos criada na França por Albert Uderzo e René Goscinny em
1959. Ásterix
foi inspirado em um grande chefe guerreiro, Vercingetorix, líder da revolta
gaulesa contra os romanos em 53 a.C.-52 a.C..
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A Gália Cisalpina e o norte da Itália |
O povo celta era constituído por várias tribos − bretões, gauleses, batavos, belgas
e caledônios, entre outros − que começaram a se espalhar pelo Oeste da Europa no
neolítico, ao redor do terceiro milênio a.C.. Uma parte importante de seu
território se constituía na Gália, que compreende o atual território da França,
além de partes da Bélgica, da Alemanha e do norte de Itália
(Gália Transalpina e Cisalpina, isto é, aquém dos Alpes), em especial a
Lombardia ocidental (os ínsubres, no que hoje é a região de Milão) e central (os
oróbios, em Bérgamo). O auge da cultura foi ao redor de 500 a.C..
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Bardos: os narradores da tribo |
Como sabemos pela representação de Uderzo e Goscinny,
o povo celta era bom de briga – a Gália sempre foi uma dor de cabeça para o
Império romano. Havia uma estrutura tribal definida, embora os celtas não fossem
particularmente ligados à noção de autoridade – os chefes eram apenas um membro
da tribo que ocupava aquela posição no momento. Talvez mais conhecidos – ao
menos nas representações midiáticas – eram os sacerdotes (os druidas) e os historiadores
oficiais (os bardos), classes que realizavam convenções anuais para comunizar
seus saberes, como as conferências contemporâneas. Em termos de relações de
gênero, tratava-se de uma cultura igualitária. “As mulheres podiam assumir
qualquer posto, sendo bardas e guerreiras”, explica Patrícia, que desenvolve
sua pesquisa de doutorado especificamente sobre os celtas da Irlanda sob orientação
da Prof. Dra. Laura Izarra.
Celtas
na Irlanda
Com o avanço dos romanos, os celtas foram gradualmente
migrando para as franjas do império, como a celta ibérica (Portugal e Espanha,
caso da região formada hoje por Galícia e países bascos), extremo oeste da
Inglaterra (Ilha de Man, País de Gales e Cornualha, terra do mítico rei Arthur),
Escócia e Irlanda.
Um dos locais mais propícios para se observar esta
cultura é sem dúvida a Irlanda,
especialmente no sul do país. Segundo Patrícia,
em um antigo mito de criação, os irlandeses atuais descendem dos Tuatha de
Danaan (os filhos da deusa Danu), o quinto dos seis grupos de habitantes da Irlanda.
Ao chegarem, teriam encontrado três filhas da deusa Dagda na praia: Fodla,
Banba e Eire, desta última teria surgido o novo nome do local, Eire Land,
Ireland. Eles teriam chegado ao primeiro dia de maio, até hoje uma das maiores celebrações
celtas, o dia de Beltane, exatamente na metade entre o equinócio da primavera e
o solstício de verão, marcando o retorno da estação quente.
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As datas festivas celtas |
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As árvores consideradas sagradas |
Das tradições irlandesas, destacam-se as fadas, que
seriam os descendentes dos povos originários, os Tuatha de Danaaan,
especialmente em relação com suas moradas, três árvores das mais sagradas: o carvalho (oak ou Quercus sp.), o
freixo-europeu (ash ou Fraxinus
excelsior) e o abrunheiro (blackthorn ou Prunus spinosa). Como as fadas irlandesas contêm o lado bom, mas também o mau, por via
das dúvidas até hoje os irlandeses preservam estas três espécies de árvores,
quando nascidas espontaneamente. Da mesma família, há fadas que vivem no mar e o
leprechaun, um homenzinho sapateiro
das fadas.
Outra relação
contemporânea importante diz respeito ao Halloween, cada vez mais
comemorado no
Brasil a partir da experiência estadunidense. Contudo, lembra Patrícia, o Halloween ou Samhain (lê-se soen) é o mais importante festival irlandês, pois marca
o fim do verão e, por extensão, o ano novo celta. Segundo esta tradição milenar,
no dia 31 de outubro abrem-se os portais entre o mundo material e o mundo
espiritual, permitindo o encontro entre luz e trevas, entre vivos e mortos. “É
quando ocorre a integração de forças naturais e sobrenaturais”, conta a
diretora da ABEI – Associação Brasileira de
Estudos Irlandeses. As hoje abóboras (tradição estadunidense) e nabos
entalhados (irlandesa) são na verdade proteções contra as almas errantes.
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As lanternas de nabo irlandesas |
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Cruz celta |
Texto: Monica Martinez
Bibliografia
GANTZ, J. Early Irish Myths and
Sagas. London: Penguin Books, 1981.
GREGORY, Lady. Visions and Beliefs
in the West of Ireland. Norfolk, Colin Smyth, 1920.
GREGORY, Lady. Complete Irish Mythology.
London: Bounty Books, 1994.
FOSTER. R.F. The Oxford History of
Ireland. Oxford: Oxford University Press, 1989.
YEATS, W.B. Irish Fairy and Folk
Tales. New York: The Modern Library, 2003.
YEATS, W.B. The Celtic Twilight.
Charleston: Bibliobazar, 2008.
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