quarta-feira, 21 de junho de 2017

Relato do Encontro de Outono de 2017: patriarcado, mistérios das deusas sumerianas e egípcias



“[...] em relação aos símbolos: eles não se referem a eventos históricos; eles se referem, através de eventos históricos, a princípios espirituais ou psicológicos e forças de ontem, hoje e amanhã, e que estão em todo lugar” (CAMPBELL, 2015, p.86).

O segundo encontro do ano promoveu a continuidade do estudo voltado para o mais recente livro lançado em português do mitólogo estadunidense Joseph Campbell (1904- 1987). Trata-se de Deusas: os mistérios do divino feminino (editora Palas Athena, 2015).
O encontro realizado na cidade de Cotia, São Paulo, contou com a participação da psicoterapeuta Ana Maria Galrão Rios que abordou e desenvolveu aspectos relacionados aos capítulos três, O Influxo Indo-Europeu, e quatro, Deusas Sumérias e Egípcias da obra de Campbell.
Aprofundando a temática, Rios apresentou sua dissertação de mestrado, concluída em 2008, intitulada Um estudo junguiano sobre a imagem de Deus das crianças num contexto cristão. O trabalho foi desenvolvido com alunos do ensino fundamental e médio e buscou observar a imagem de Deus nas crianças de diferentes faixas etárias (RIOS, 2008).
De antemão a palestrante aponta para as relações entre a construção da imagem do Deus Judaico/Cristão com a construção da imagem concebido pelas crianças. O Deus Judaico/Cristão é aquele que cria o ser humano a partir de seu desejo e que possui uma relação com sua criação demonstrando raiva, bondade, amor, tristeza ou até mesmo punindo.
A imagem de um Deus participativo é construída no imaginário infantil nos primeiros anos de vida conforme as relações que as mesmas desenvolvem com seus pais. Sendo assim, Deus é representado como benevolente, bravo, amoroso ou não, perante a imagem e semelhança que as crianças possuem de seus pais.
Rios afirma que o cérebro humano vive sobre um imperativo cognitivo (imperativo semelhante ao desenvolvido pelo filósofo do século XVIII Immanuel Kant), ou seja, os humanos sempre buscam saber e explicar os fenômenos. Não importa a complexidade da explicação, o cérebro cria um enredo e, se necessário, um mito para preencher as lacunas.
Na concepção da palestrante, os mitos que acreditamos moldam a forma com que nos relacionamos com a vida desde os primórdios.
A construção da imagem de Deus é concebida em crianças de forma distinta conforme cada idade. Segundo a pesquisadora, elas passam por quatro ciclos arquetípicos do desenvolvimento: matriarcal,  patriarcal, de alteridade e cósmico.
No ciclo matriarcal a criança se percebe como centro, não somente do próprio mundo, mas do mundo enquanto tal.  Deus é construído à imagem da criança e, portanto, é um Deus que brinca (FIG.1).

Figura 1: Deus que brinca
Fonte: RIOS, 2008

                       

O ciclo patriarcal é responsável por fixar o símbolo do divino no imaginário da criança. Valores como ordem, disciplina, autoridade e justiça se manifestam nos desenhos; as imagens e símbolos se fixam e codificam conforme os padrões culturais onde a criança está inserida (FIG.2).
Figura 2: Jesus crucificado
       Fonte: RIOS, 2008

 
A percepção da existência e importância do outro ocorre no ciclo da alteridade. Nele, as escolhas são baseadas não apenas no próprio sentimento, mas também no sentimento do outro (FIG.3). Um exemplo desse ciclo são as festas de aniversários organizadas pelos próprios adolescentes (12-14 anos), que enfrentam dificuldades em convidar amigos e deixar de fora alguns colegas devido aos conflitos que naturalmente permeiam grupos nessa faixa etária.

Figura 3: Deus branco e negro, consciência e compreensão das diferenças
Fonte: RIOS, 2008
  
É por meio do ciclo cósmico que as polaridades transcendem e há uma percepção de tudo como um todo único que está em permanente mutação.

 
Figura 4: Jesus Cristo rezando por todos
Fonte: RIOS, 2008

                                        

Rios aponta para a importância de se compreender que tanto o patriarcal, quanto o matriarcal possuem pontos positivos e negativos. A polaridade negativa se apresenta quando há um uso excessivo dessas características.
Inanna, deusa da Suméria
Fonte: Pinterest
O ciclo patriarcal, por exemplo, age segundo um futuro previsto, sendo aquele que defende, cuida e que é justo, o que garante a ordem e a lealdade. É por meio do patriarcado, portanto, que há leis que garantem a sobrevivência da espécie humana, permitindo uma organização que favorece toda a sociedade.
Em contrapartida, o matriarcal funcionaria melhor em pequenos grupos já que seu interesse está relacionado à pertinência, continência e sobrevivência.
Nessa perspectiva, o feminino em um sistema patriarcal abusivo pode ser posto em condição de submissão para sobreviver. No entanto, apesar das mulheres não possuírem dentro desse sistema uma representação do sagrado de forma direta, a pesquisadora adverte que representações recorrentes a Deusa sempre existiram e estão presentes.
Casamento sagrado: Isis como uma ave de rapina sobre
Osiris morto no mito da geração de Hórus 
Abordando as representações da Deusa no capítulo quatro, Deusas Sumérias e Egípcias da obra de Campbell, Ana comenta os mitos de Inanna, Isis e Maat. Interpretando as narrativas pela perspectiva da psicologia analítica, a palestrante lembra que Inanna e Isis estão relacionadas ao mito do casamento, enquanto Maat à justiça.
Como afirma Ana, o masculino e o feminino são polaridades encontradas em todos os seres humanos e o abuso de um sistema, seja qual ele for, é prejudicial.
Maat, a deusa egípcia
da Justiça: pena como símbolo
As narrativas míticas são encontradas em todas as partes, nas palavras da psicoterapeuta Ana Maria Galrão Rios: “Os deuses vão nos visitar através dos símbolos” e para Joseph Campbell (1904- 1987): “[...] quando o masculino entra, há divisão, ao passo que, quando o feminino entra, cria-se a união” (2015, p.122). Mas é somente quando ambos estão em relação que há a possibilidade de alteridade e, no vocabulário da psicologia analítica, transcendência, no sentido dialético de a soma das partes ser maior que o todo.

Por Vanessa Heidemann


Referências

CAMPBELL, J. Deusas: os mistérios do divino feminino. São Paulo: Palas Athena, 2015.

RIOS, A. M. G. “Um estudo junguiano sobre a imagem de Deus das crianças num contexto cristão”. 2008. 256 f. Dissertação (Mestrado) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em:



segunda-feira, 8 de maio de 2017

17/6 - 14h - Encontro de Outono do Núcleo Granja Viana-SP da Fundação Joseph Campbell



É com satisfação que convido para nosso segundo encontro de 2017, que será realizado no sábado 17/6, a partir das 14h. 

We are pleased to invite you to join our Autumn Roundtable, which will be held on June 17, 2017, 2pm. 

Dedicaremos este ano ao estudo do mais recente livro de Joseph Campbell lançado em português no Brasil: Deusas: o mistério do divino feminino (Editora Palas Athena).  

In 2017 we are working on the newest Joseph Campbell´s book translated to Portuguese in Brazil: Goddesses: mysteries of the divine feminine (Palas Athena Publisher).

A palestrante será a psicoterapeuta Ana Maria Galrão RiosDoutora e Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2008), na área de Estudos Junguianos. Especialista em Psicologia Clínica, atua principalmente nos temas de desenvolvimento psicológico, psicologia analítica, calatonia, trabalho corporal em psicoterapia e Jung. Pertence ao corpo editorial da Revista Hermes. 

The speaker will be the psychotherapist Ana Maria Galrão Rios. Rios holds a PhD in Clinical Psychology (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008), being an specialist in analytical psychology and calatonia, among other subjects. She serves as an editorial board advisor to Hermes Journal.

Na oportunidade, trabalharemos o capítulo 3 (O influxo indo-europeu) e o capítulo 4 (Deusas Sumérias e Egípcias) (páginas 91 a 135). 

She was invited to present her vision on the Chapter 3 (The Indo-European Influence) and Chapter 4 (Sumerian and Egyptian Goddesses) (pages 91 to 135).

O evento é gratuito, mas solicitamos a doação de um quilo de alimento não perecível por participante para o espaço paroquial. 

The event is free of charge, but we request the donation of one kilo of non-perishable food per participant to the parish.

Leve também frutas, doces, salgados ou sucos para compartilhar no lanche comunitário de encerramento, realizado às 16h30. 

Also be welcome to bring fruits and other healthy food or juices to share in the community closing gathering, held at 4:30 p.m.


Relembrando o local: Igreja Santo Antonio (Rua Santo Antonio, 486 (km 24 da Rodovia Raposo Tavares, sentido São Paulo›Cotia). Acesso pela Rua José Félix de Oliveira (Entrada pela secretaria localizada na lateral da igreja, em frente ao Banco Bradesco). Para ver no Google Maps, clique aqui

Venue: Santo Antonio Parish (Rua Santo Antonio, 486 (km 24 of the Raposo Tavares Highway, direction São Paulo> Cotia) Access by José Félix de Oliveira Street (Entrance by the office located on the side of the church, in front of Banco Bradesco). 

Abraços/Best

Monica Martinez
Coordenadora da JCF Mythological Roundtable® Granja Viana-SP (Brasil)*

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Relato do Encontro de Verão de 2017: os mistérios do divino feminino



“Certa vez li sobre uma antiga maldição chinesa: ‘Que você renasça numa época interessante!’ A nossa época é uma época muito interessante: não há modelos para nada do que está acontecendo. Tudo está mudando, mesmo a lei da selva masculina. É um tempo de queda livre para dentro do futuro, e cada um ou cada uma deve criar seu próprio caminho. Os modelos antigos não estão funcionando, os novos não apareceram ainda. De fato, nós mesmos é que estamos modelando o novo segundo a forma de nossas vidas interessantes. Joseph Campbell

Ao iniciar um novo ciclo de estudos acerca das narrativas míticas, contamos com a presença da psicoterapeuta Leda Maria Pirillo Seixas, professora do curso de Psicologia na Faculdade de Ciências da Saúde da PUC-SP.  
Nesse primeiro encontro de 2017, foram discutidas as três primeiras partes (introdução, capítulo 1 e 2) do livro do mitólogo estadunidense Joseph Campbell (1904- 1987), lançado em 2015 em português no Brasil pela editora Palas Athena, Deusas: os mistérios do divino feminino (CAMPBELL, 2015)
Com o desenvolvimento das sociedades modernas e da tecnologia, os mitos são muitas vezes tidos como algo que permaneceu no passado, como histórias ou mentiras. Esse tipo de interpretação privilegia uma visão que tende a excluir os mitos do contexto dos estudos das narrativas nos dias atuais. Contudo, nas palavras da professora Leda Seixas, eles apenas mudaram de face.
Segundo ela, existem exemplos atuais de mitos que ainda norteiam a nossa existência, como a ciência, a política e a economia, que podem ser considerados os novos deuses poderosos que estão presentes em nosso cotidiano.
Assim, abordar o masculino e o feminino em nossa sociedade pode ser tarefa complexa, já que o papel de ambos passa por transformações. Entre os povos primevos, ancorados numa perspectiva mais biológica, existia uma clara distinção de cada um desses arquétipos, visto que o homem era aquele que caçava, sustentava e protegia, enquanto a mulher era a que transformava. Essa noção era baseada no corpo da mulher, tido como mágico, pois que “repentinamente” dava origem à uma nova vida. Isso porque não havia ainda a compreensão da importância do papel do homem relacionado à reprodução.
O corpo feminino, então, era associado à terra, às cavernas, aos mistérios do nascimento, da morte e do renascimento. Não por acaso, os primeiros cultos ao feminino estavam voltados para questões de vida e morte.
Carl Gustav Jung (1875-1961), pai da psicologia analítica, desenvolveu uma abordagem baseada nos arquétipos do feminino e masculino, onde a Anima é entendida como o princípio feminino no inconsciente do homem e o Animus o princípio masculino no inconsciente da mulher. Segundo a professora, desde então essas noções propostas por Jung estão sendo ampliadas e desenvolvidas por outros especialistas do campo.
A própria psicoterapeuta sugere tentar compreender essa dualidade por meio da direção ou forma de energia, onde o princípio masculino representaria o Logos, ou seja, a razão e a objetividade, e o princípio feminino o Eros, não no sentido sexual, mas de relação entre as coisas, de conexões.
Ao longo da evolução histórica, sobretudo nas últimas décadas, o papel social da mulher se transformou devido às guerras – que levou à diminuição dos homens na sociedade, possibilitando às mulheres trabalhar fora de suas casas – e ao avanço tecnológico, da pílula anticoncepcional ao desenvolvimento dos eletrodomésticos, que liberou a mulher de muitas funções relacionadas à manutenção da casa e da família.
Para Leda Seixas, o primeiro movimento da mulher na sociedade moderna foi o de competir com o homem para conseguir um lugar na sociedade – processo que levou as mulheres a imitarem o comportamento masculino. Segundo ela, hoje “não possuímos mais parâmetros. Os papeis tradicionais foram rompidos e, ao mesmo tempo em que isso é interessante, é muito difícil, já que cabe a cada um tentar descobrir o que fazer com sua própria vida”.
Nesse contexto, a professora afirma que há uma evolução de comportamento e que a partir de agora as mulheres devem passar a tentar buscar mais sua essência feminina e a forma que elas podem contribuir com sua feminilidade para com o mundo. Isso porque a imagem e a força do arquétipo do feminino permanecem.
Além disto, existiram mitos que incluem outras variações dessas imagens arquetípicas, como o do hermafrodita. Um desses mitos é relatado por Platão (428/427 - 348/347 a.C) em sua obra O Banquete (PLATÃO, 1991), por meio do diálogo de Aristófanes que explica como esses seres seriam originalmente. Segundo Platão, tratava-se de seres duplos e esféricos, que possuíam dois pares de cabeças, quatro pernas e quatro braços. Eles seriam divididos em três sexos. Um seria constituído por duas metades masculinas (os filhos do Sol); outro por duas metades femininas (as filhas da Terra); e o terceiro seria andrógino, metade feminina, metade masculina (os filhos da Lua).
Como se voltaram contra os deuses, a fim de acabar com sua intemperança e arrogância Zeus cortou-os em dois, dividindo-os. Esse mito explicaria a eterna necessidade das pessoas de buscarem uma completitude no outro, bem como a nostalgia do tempo em que o feminino e o masculino teriam vivido em comunhão, em totalidade. 
Quando questionada sobre esse mito ser a representação da eterna busca pela ´tampa da panela´, a professora adverte que os mitos apontam para além do aspecto racional: “O mito não é uma expressão literal da realidade, pois ele se expressa de uma maneira simbólica”.
Para finalizar, Leda Seixas lembrou que o “feminino é um todo que é multifacetado”. Assim, a mulher é associada ao mistério, à mágica e à natureza. Por isso, mesmo no contexto contemporâneo que privilegia os valores do masculino, a mulher deveria se voltar para si mesma para reconhecer toda a sua força. Para ela, a “sabedoria da coruja está em ser coruja”, frase que leu na lousa da escola primária e nunca mais esqueceu.

Texto: Vanessa Heidemann, mestranda do Programa de Comunicação e Cultura da Uniso.


Referências
CAMPBELL, J. Deusas: os mistérios do divino feminino. São Paulo: Palas Athena, 2015.

PLATÃO. Diálogos: o banquete, Fédon, Sofista, Político. 5. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

terça-feira, 28 de março de 2017

1/4 - 14h - Encontro de Verão do Núcleo Granja Viana-SP da Fundação Joseph Campbell



É com satisfação que finalmente convido para nosso primeiro encontro de 2017, que será realizado no  sábado 1/4, a partir das 14h. 

Dedicaremos este ano ao estudo do mais recente livro de Joseph Campbell lançado em português no Brasil: Deusas: o mistério do feminino (Editora Palas Athena).  

A palestrante será a psicoterapeuta Leda Maria Pirillo Seixas. Professora do curso de Psicologia na Faculdade de Ciências da Saúde da PUC-SP e do curso Jung e Corpo do Instituto Sedes Sapientiae , ela é mestre em Psicologia Clínica pela mesma instituição, especialista em psicoterapia junguiana, cinesiologia, calatonista e editora da Revista Hermes. 

Na oportunidade, trabalharemos a Introdução (Sobre a Grande Deusa), o capítulo 1 (Mito e o Divino Feminino) e o capítulo 2 (Deusa mãe criadora: neolítico e início da idade do bronze (páginas 17 a 88). 

O evento é gratuito, mas solicitamos a doação de um quilo de alimento não perecível por participante para o espaço paroquial. 

Leve também frutas, doces, salgados ou sucos para compartilhar no lanche comunitário de encerramento, realizado às 16h30. 


Relembrando o local: Igreja Santo Antonio (Rua Santo Antonio, 486 (km 24 da Rodovia Raposo Tavares, sentido São Paulo›Cotia). Acesso pela Rua José Félix de Oliveira (Entrada pela secretaria localizada na lateral da igreja, em frente ao Banco Bradesco). Para ver no Google Maps, clique aqui

Até lá!

Monica Martinez
Coordenadora da JCF Mythological Roundtable® Núcleo da Granja Viana-SP (Brasil)*
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Relato do Encontro de Primavera: as raízes guaranis da mitologia brasileira




Nesse ano de 2016, quando o Núcleo Granja Viana da Fundação Joseph Campbell propôs diálogos sobre as diferentes raízes da mitologia brasileira, o tema que encerrou esse ciclo de estudos foi “As raízes indígenas da mitologia e cultura brasileira” em palestra ministrada pelos professores Mário Ramão Filho e Almir da Silveira.

Filho de mãe guarani, Mário Ramão Filho é professor de Língua e Cultura Guarani na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) desde 2012. Já Almir da Silveira é professor de língua e cultura guarani no curso de extensão cultural do Centro Ángel Rama da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP).

A palestra começou com a fala de Ramão, que fez uma introdução ao mundo guarani por meio do significado do termo Ayvu Rapyta, uma compilação dos mitos orais do povo guarani. Ayvu significa palavra ou língua e Rapyta alma, ou parte divina do ser humano. 

O professor esclarece que as palavras de origem guarani possuem grande complexidade, o que dificulta as traduções. A palavra Ayvu, por exemplo, significa palavra e som ao mesmo tempo. Isso porque na cultura guarani som e espírito são indissociáveis. 

Além da dificuldade linguística há ainda uma grande dificuldade relacionada ao levantamento histórico dos mitos guaranis, já que não há como verificar até que ponto o olhar do “homem branco” influenciou essas narrativas. Por isso, segundo o professor, é sempre necessário fazer alguns questionamentos: Como o índio conta esse mito para o branco? O branco o romantiza? De onde nascem os mitos? De onde eles vêm?

O mito da criação guarani gira em torno do deus Ñanderu ou Nhanderu, que é considerado o primeiro, o grande pai. Apesar de o povo guarani ser politeísta, este deus está acima dos outros.
 Ñanderu teve quatro filhos, Jakaira, Karai, Ñamandu e Tupã, cada um relacionado a um ponto cardeal (norte, leste, sul e oeste).

Representação do deus guarani Ñanderu e seus quatro filhos

Compartilhando a riqueza do imaginário guarani o Prof. Mario nos conta a Lenda das Cataratas, que segundo ele é muito forte em Foz do Iguaçu, região onde vive e leciona atualmente.

De acordo com a narrativa, havia uma índia prometida para se casar com o deus cobra Tupã. No entanto, um índio se apaixona por ela e eles fogem juntos. Furioso, Tupã cria fendas na terra, dando origem às cataratas. Para punir o casal, transforma a índia em uma pedra e o índio em uma palmeira, fazendo com que ambos pudessem se olhar, mas nunca mais se tocar.

Dando continuidade à história de Ñanderu e sua origem, Silveira relata que, segundo o mito, antes havia apenas o caos e a escuridão e o deus se autocriou na forma de uma árvore. Assim, os adornos que os homens guaranis utilizam em suas cabeças são símbolos do masculino e representam a copa dessa árvore divina.

Para transitar entre os mundos, o deus dá vida a dois seres. O primeiro é o beija-flor, que age como mensageiro entre este mundo e o mundo sútil/espiritual. O segundo é a coruja, a única que consegue enxergar na escuridão e, portanto, consegue ter uma perspectiva deste mundo através dela.

A palavra é a primeira coisa que Ñanderu dá aos homens, e ela deve ser utilizada com parcimônia. Segundo os professores, os índios guaranis não falam muito, pois, dentro de sua cultura, deve-se tomar cuidado para quem se dá a palavra, já que eles compreendem que a palavra e a alma são uma única e mesma coisa. Neste sentido, falar demais significa que a pessoa está se esvaziando de seu poder. Vem daí a expressão nhem nhem nhem, falar de forma verborrágica e vazia de conteúdo.

Para os guaranis este mundo não é diferente do mundo espiritual, por isso eles procuram viver dentro do princípio do Teko Porã (Teko, vida e Porã, boa). Se esse princípio for desrespeitado, o guarani pode perder o direito a ela, ter retirado seu Téra (nome) e passar a ser um Terá O (sem nome). Os professores nos advertem sobre a seriedade desse processo, já que na cultura guarani toda palavra significa alma. Desta forma, quando o nome de um indivíduo é retirado também lhe seria retirada a alma.

Ainda sobre mito da origem, Silveira diz que para os guaranis o que está no centro do mundo é uma palmeira (Pindo). Daí o nome dado para o Brasil pelo povo guarani era Pindorama, ou seja, Terra das Palmeiras. Sobre cinco palmeiras o “Primeiro Mundo” foi criado. Neste mundo homens, animais e deuses conviviam pacificamente, não havendo nenhuma doença ou mal. No entanto, depois de um incesto entre os homens este lugar foi destruído com um diluvio. Importante ressaltar que, segundo o professor, a semelhança entre a narrativa guarani com a narrativa cristã foi percebida pelos jesuítas, que aos poucos substituíram uma pela outra.

Outra narrativa que se aproxima da cristã é a história de Kerana e Tau, casal que teve sete filhos monstros por conta de uma maldição, por meio da qual durante sete anos eles amaldiçoariam a Terra. Ao ser procurado para intervir nessa situação, Ñanderu tem uma ideia: envia uma linda índia para seduzir um dos irmãos monstros e a instrui a se casar com ele, exigindo apenas que no dia de seu casamento os outros irmãos estejam presentes. Seduzido por tamanha beleza, o irmão escolhido cede ao pedido e convida os demais. Apesar de compreender os riscos que corre, a índia se prontifica a seguir com o plano. Enquanto todos estão comemorando e bebendo dentro de um lugar fechado, ela tenta sair para dar o sinal combinado, mas um dos irmãos percebe e evita sua saída.

Gritando lá de dentro, ela avisa que não conseguirá sair e sacrifica a própria vida enquanto o fogo se espalha matando a todos. Como recompensa por sua bravura, Ñanderu a transforma em uma estrela, Poraci, nada menos que a primeira a aparecer no céu ao anoitecer para relembrar a todos sua coragem. Sim, é o planeta Vênus ou estrela d´alva, como a conhecemos.  

Após a “Primeira Terra” se originou a “Terra Nova”, esta onde vivemos e onde os deuses não estão mais presentes, mas as doenças e a fome sim. A grande esperança para o povo guarani está em encontrar a “Terceira Terra”, uma terra sem males, onde não haverá mais maldade, fome ou doenças.

 Segundo os professores, a migração para o litoral do Brasil pode estar relacionada à busca desse “novo mundo”. Como na cultura guarani não há distinção entre o mundo espiritual e o material, seria possível encontrar esta espécie de paraíso na terra ainda em vida.

Sobre a morte, segundo essa tradição, quando um guarani morre ele ficaria vagando durante algum tempo na forma de espírito pela tribo até reencarnar no corpo de um animal. Essa crença está associada com um rito guarani que transformaria a carne em planta antes de sua ingestão, uma forma de reverenciar os ancestrais que estão se doando para alimentar as novas gerações.  

O povo guarani pode ser encontrado no Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia, sua população está entre 15 a 16 milhões de pessoas, sendo que aproximadamente 6 milhões estão no Paraguai. Atualmente a língua guarani foi instituída nas escolas do Paraguai como sendo obrigatórias, porém, sua proibição durou muito tempo no país e as crianças que a empregava chegavam a ser castigadas fisicamente nas escolas. 

Para Ramão, o fato de a língua passar de proibida para obrigatória sem um período de adaptação da população pode favorecer e reforçar o preconceito relacionado a ela no país. Silveira também ressalta que, apesar de atualmente a língua ser obrigatória nas escolas do Paraguai, o material utilizado foi produzido de uma maneira elitizada, por acadêmicos que não consultaram a população que  utilizava a língua em seu cotidiano − processo vertical que prejudica o aprendizado e não garantiria um aprendizado efetivo do guarani.

Após a fala de ambos os professores, foi aberta a discussão para os participantes. Nesse momento, ficou evidente o encantamento que a língua e cultura guarani causou. Curiosos em relação à complexidade das palavras e em como elas são capazes de explicar aquilo a que nomeiam de forma tão rica, os professores ensinaram mais três palavras em guarani e apontaram novamente para a dificuldade de traduzir palavras que carregam tanto significado em si.

Ko’e rõ, por exemplo, na tradução simplificada significa “amanhã”. Já o mais próximo de seu significado original seria “se amanhecer”.

Mba’eichapa Neko’ , “bom dia”, na verdade significa “como você amanheceu hoje?”.

Aguyjevéte é mais do “muito obrigado”, por se tratar de uma saudação com um significado espiritual e sagrado.

No decorrer do debate muitos participantes apontaram para as questões sociais que envolvem a população indígena e para a similaridade entre os mitos guaranis com outros mitos encontrados em diferentes partes do mundo.

Ficou evidente ainda como no Brasil existe uma ampla divulgação de diversas culturas e seus respectivos mitos. No entanto, o quanto ainda há de potencial e oportunidades para ampliar o conhecimento da cultura indígena, que é tão próxima e tão distante ao mesmo tempo no nosso país.

Texto: Vanessa Heidemann
Foto: Diogo Azoubel




quarta-feira, 14 de setembro de 2016

3/12 - 14h - Encontro de Primavera do Núcleo Granja Viana-SP da Fundação Joseph Campbell


Nosso quarto encontro de 2016 será realizado no  sábado 3/12, a partir das 14h. Ele será dedicado às raízes indígenas da mitologia e cultura brasileiras, com palestra dos Profs. Dr. Mário Ramão (Avañe´e). 

Filho de mãe guarani, Mário Ramão Villalva Filho é professor de Língua e Cultura Guarani na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu (PR), desde 2012. Mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo, tem especialização em Educomunicação pela ECA/USP (1992), com enfoque em comunicação comunitária e cultura guarani. 

Almir da Silveira é professor de língua e cultura guarani no curso de extensão cultural do Centro Ángel Rama da FFLCH/USP. Especialista no ensino de línguas há mais de 20 anos, atualmente é professor no curso de Letras da Uniesp - campus Vargem Grande Paulista.

O evento é gratuito, mas solicitamos a doação de um quilo de alimento não perecível por participante para o espaço paroquial. 

Leve também frutas, doces, salgados ou sucos para compartilhar no lanche comunitário de encerramento, realizado às 16h30. 


Relembrando o local: Igreja Santo Antonio (Rua Santo Antonio, 486 (km 24 da Rodovia Raposo Tavares, sentido São Paulo›Cotia). Acesso pela Rua José Félix de Oliveira (Entrada pela secretaria localizada na lateral da igreja, em frente ao Banco Bradesco). Para ver no Google Maps, clique aqui

Monica Martinez
Coordenadora da JCF Mythological Roundtable® Núcleo da Granja Viana-SP (Brasil)*
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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Relato do Encontro de Inverno: as raízes árabes da mitologia brasileira



Como parte da proposta para 2016 do Núcleo Granja Viana da Fundação Joseph Campbell, que visa dialogar sobre as diferentes raízes da mitologia brasileira, o Encontro de Inverno contou com a palestra de Paulo Daniel Elias Farah, apresentando as influências da cultura árabe no Brasil.
Farah é graduado (Língua e Literatura Árabe), mestre (Linguística) e doutor (Letras) pela Universidade de São Paulo, sendo docente e pesquisador na mesma instituição, desenvolvendo estudos envolvendo Literatura, História e Cultura Árabe. Possui em sua produção bibliográfica o livro Deleite do estrangeiro em tudo que é espantoso e maravilhoso, entre outros.
O professor iniciou sua fala expondo um conceito que, embora elementar, por vezes pode ser visto de maneira errônea: a distinção entre árabe, uma etnia, e muçulmano (também islâmico), uma característica religiosa. Segundo Farah, árabe seria aquele que se vê como vinculado a um dos 22 países árabes (a saber, Arábia Saudita, Argélia, Bahrein, Comores, Djibouti, Egito, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Iraque, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Omã, Palestina, Catar, Saara Ocidental, Síria, Somália, Sudão e Tunísia). Em seguida, o palestrante abordou os quatro principais momentos históricos de contato entre o Brasil e os povos árabes e/ou muçulmanos.
O primeiro momento seria já na colonização do Brasil, uma vez que os árabes estiveram presentes na Península Ibérica entre os séculos VIII e XVII, influenciando significativamente a cultura portuguesa. A influência mais conhecida estaria no próprio idioma, uma vez que, de acordo com Farah, mais de 3.000 palavras no idioma português tem origem árabe, dentre as quais se destacam as iniciadas em a ou al, como alface. Outra prova dessa influência estaria na literatura aljamiada, ou seja, obras literárias escritas em português, porém utilizando alfabeto árabe.
Menos conhecida do que a influência linguística seria a influência náutica. O palestrante apontou que o desenvolvimento português nessa área teria sido propiciado pelos muçulmanos. O motivo disso seria um dos pilares do islamismo, a peregrinação uma vez durante a vida à Meca (Hajj). Impulsionados por essa obrigatoriedade religiosa, os muçulmanos teriam alcançado inovações importantes na navegação. A própria expansão muçulmana à Península Ibérica também teria raízes na busca por conhecimento, um valor caro aos islâmicos, ilustrado por Farah pelo provérbio “movimento é bênção”.
O segundo momento seria entre o final do século XVII e o século XVIII. Nesse período, indivíduos da África foram trazidos para o Brasil como escravos, dentre os quais encontravam-se grupos muçulmanos. No Brasil, as pessoas escravizadas que eram letradas (onde se observa novamente a busca por conhecimento islâmica, em contraponto ao patamar de eduação vista no Brasil da época) ficaram conhecidas como Malês.
Embora a origem do termo ainda seja objeto de debate, Farah se situa no grupo que defende o termo como oriundo de uma tradução de Mestre, tendo em vista o alto nível de letramento desses indivíduos em relação à média dos brasileiros do período. Apesar de não haver liberdade religiosa no Brasil na época, onde a religião oficial do império era o Catolicismo, os Malês mantinham a religiosidade islâmica em segredo. Isso porque, como apontou Farah, “não é possível desvincular conhecimento de espiritualidade, segundo algumas linhas do Islã”.
Além de influenciarem nas vestimentas brancas  ̶  até hoje associadas às tradições religiosas ligadas aos afrodescendentes  ̶, os muçulmanos tornaram popular (mesmo por parte da população brasileira cristã da época) o uso de patuás (também chamados gris-gris ou quadrados mágicos). Farah observou também o Levante dos Malês, ocorrido em 1835 em Salvador, tido como a “maior revolta da história em contexto urbano”. Como legado do levante, os malês teriam suscitado o debate às questões de igualdade e justiça social no Brasil.
No final do século XIX teria ocorrido o terceiro movimento, com uma migração de árabes para o Brasil. Evidencia-se aqui o termo árabe, e não muçulmano, uma vez que a população que migrou para o Brasil nesse período era essencialmente cristã. Isso, de acordo com Farah, reflete no dado de que hoje, dos cerca de 16 milhões de árabes que vivem no Brasil, somente cerca de 10% são muçulmanos.
Embora D. Pedro II tenha feito duas viagens ao Oriente Médio na época (1861 e 1876), Farah desmente o “mito do Brasil acolhedor” nesse caso, uma vez que, ao contrário das migrações européias da época, os árabes vinham para o país sem subsídios nem contratos de trabalho previamente arranjado. De toda forma, a primeira visita de um imperador latino-americano a países como Egito, Síria e Líbano teve grande repercussão nos jornais locais da época, tendo implantado no imaginário dos povos árabes a semente de uma terra farta, onde se plantando tudo se colhia.
Atualmente, vivemos o quarto movimento, com os recentes fluxos de refugiados que se intensificou nos últimos cinco anos. O Brasil acolhe atualmente cerca de 20 mil refugiados de mais de 30 nacionalidades diferentes, sobretudo sírios e congoneses. Contou sobre seu trabalho envolvendo essas pessoas na Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul – Países Árabes – África (https://bibliaspa.org/), com diversas atividades envolvendo a integração de refugiados no país.
Após sua fala, grande parte do diálogo com os participantes envolveu as questões do feminino no mundo árabe e islâmico, tema que antecipa a proposta de 2017 para o Núcleo, que pretende debruçar-se sobre a última tradução de Campbell para o português, o livro Deusas: Os Mistérios do Divino Feminino, lançado em 2015 pela Palas Athena.

Tadeu Rodrigues