quarta-feira, 5 de abril de 2017

Relato do Encontro de Verão de 2017: os mistérios do divino feminino



“Certa vez li sobre uma antiga maldição chinesa: ‘Que você renasça numa época interessante!’ A nossa época é uma época muito interessante: não há modelos para nada do que está acontecendo. Tudo está mudando, mesmo a lei da selva masculina. É um tempo de queda livre para dentro do futuro, e cada um ou cada uma deve criar seu próprio caminho. Os modelos antigos não estão funcionando, os novos não apareceram ainda. De fato, nós mesmos é que estamos modelando o novo segundo a forma de nossas vidas interessantes. Joseph Campbell

Ao iniciar um novo ciclo de estudos acerca das narrativas míticas, contamos com a presença da psicoterapeuta Leda Maria Pirillo Seixas, professora do curso de Psicologia na Faculdade de Ciências da Saúde da PUC-SP.  
Nesse primeiro encontro de 2017, foram discutidas as três primeiras partes (introdução, capítulo 1 e 2) do livro do mitólogo estadunidense Joseph Campbell (1904- 1987), lançado em 2015 em português no Brasil pela editora Palas Athena, Deusas: os mistérios do divino feminino (CAMPBELL, 2015)
Com o desenvolvimento das sociedades modernas e da tecnologia, os mitos são muitas vezes tidos como algo que permaneceu no passado, como histórias ou mentiras. Esse tipo de interpretação privilegia uma visão que tende a excluir os mitos do contexto dos estudos das narrativas nos dias atuais. Contudo, nas palavras da professora Leda Seixas, eles apenas mudaram de face.
Segundo ela, existem exemplos atuais de mitos que ainda norteiam a nossa existência, como a ciência, a política e a economia, que podem ser considerados os novos deuses poderosos que estão presentes em nosso cotidiano.
Assim, abordar o masculino e o feminino em nossa sociedade pode ser tarefa complexa, já que o papel de ambos passa por transformações. Entre os povos primevos, ancorados numa perspectiva mais biológica, existia uma clara distinção de cada um desses arquétipos, visto que o homem era aquele que caçava, sustentava e protegia, enquanto a mulher era a que transformava. Essa noção era baseada no corpo da mulher, tido como mágico, pois que “repentinamente” dava origem à uma nova vida. Isso porque não havia ainda a compreensão da importância do papel do homem relacionado à reprodução.
O corpo feminino, então, era associado à terra, às cavernas, aos mistérios do nascimento, da morte e do renascimento. Não por acaso, os primeiros cultos ao feminino estavam voltados para questões de vida e morte.
Carl Gustav Jung (1875-1961), pai da psicologia analítica, desenvolveu uma abordagem baseada nos arquétipos do feminino e masculino, onde a Anima é entendida como o princípio feminino no inconsciente do homem e o Animus o princípio masculino no inconsciente da mulher. Segundo a professora, desde então essas noções propostas por Jung estão sendo ampliadas e desenvolvidas por outros especialistas do campo.
A própria psicoterapeuta sugere tentar compreender essa dualidade por meio da direção ou forma de energia, onde o princípio masculino representaria o Logos, ou seja, a razão e a objetividade, e o princípio feminino o Eros, não no sentido sexual, mas de relação entre as coisas, de conexões.
Ao longo da evolução histórica, sobretudo nas últimas décadas, o papel social da mulher se transformou devido às guerras – que levou à diminuição dos homens na sociedade, possibilitando às mulheres trabalhar fora de suas casas – e ao avanço tecnológico, da pílula anticoncepcional ao desenvolvimento dos eletrodomésticos, que liberou a mulher de muitas funções relacionadas à manutenção da casa e da família.
Para Leda Seixas, o primeiro movimento da mulher na sociedade moderna foi o de competir com o homem para conseguir um lugar na sociedade – processo que levou as mulheres a imitarem o comportamento masculino. Segundo ela, hoje “não possuímos mais parâmetros. Os papeis tradicionais foram rompidos e, ao mesmo tempo em que isso é interessante, é muito difícil, já que cabe a cada um tentar descobrir o que fazer com sua própria vida”.
Nesse contexto, a professora afirma que há uma evolução de comportamento e que a partir de agora as mulheres devem passar a tentar buscar mais sua essência feminina e a forma que elas podem contribuir com sua feminilidade para com o mundo. Isso porque a imagem e a força do arquétipo do feminino permanecem.
Além disto, existiram mitos que incluem outras variações dessas imagens arquetípicas, como o do hermafrodita. Um desses mitos é relatado por Platão (428/427 - 348/347 a.C) em sua obra O Banquete (PLATÃO, 1991), por meio do diálogo de Aristófanes que explica como esses seres seriam originalmente. Segundo Platão, tratava-se de seres duplos e esféricos, que possuíam dois pares de cabeças, quatro pernas e quatro braços. Eles seriam divididos em três sexos. Um seria constituído por duas metades masculinas (os filhos do Sol); outro por duas metades femininas (as filhas da Terra); e o terceiro seria andrógino, metade feminina, metade masculina (os filhos da Lua).
Como se voltaram contra os deuses, a fim de acabar com sua intemperança e arrogância Zeus cortou-os em dois, dividindo-os. Esse mito explicaria a eterna necessidade das pessoas de buscarem uma completitude no outro, bem como a nostalgia do tempo em que o feminino e o masculino teriam vivido em comunhão, em totalidade. 
Quando questionada sobre esse mito ser a representação da eterna busca pela ´tampa da panela´, a professora adverte que os mitos apontam para além do aspecto racional: “O mito não é uma expressão literal da realidade, pois ele se expressa de uma maneira simbólica”.
Para finalizar, Leda Seixas lembrou que o “feminino é um todo que é multifacetado”. Assim, a mulher é associada ao mistério, à mágica e à natureza. Por isso, mesmo no contexto contemporâneo que privilegia os valores do masculino, a mulher deveria se voltar para si mesma para reconhecer toda a sua força. Para ela, a “sabedoria da coruja está em ser coruja”, frase que leu na lousa da escola primária e nunca mais esqueceu.

Texto: Vanessa Heidemann, mestranda do Programa de Comunicação e Cultura da Uniso.


Referências
CAMPBELL, J. Deusas: os mistérios do divino feminino. São Paulo: Palas Athena, 2015.

PLATÃO. Diálogos: o banquete, Fédon, Sofista, Político. 5. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

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