sexta-feira, 4 de maio de 2018

Relato do encontro de primavera, com André Mendes, sobre o masculino e o contemporâneo

Ritual de passagem de uma tribo da Papua Nova Guiné (Foto: Timothy Allen)

Por Vanessa Heidemann



No dia 24 de abril de 2018, o Núcleo Granja Viana – SP da Fundação Joseph Campbell promoveu o primeiro encontro do ano.

Durante 2017, o grupo se dedicou aos estudos voltados ao sagrado feminino, utilizando como base a obra Deusas: Os Mistérios do Sagrado Feminino, de Joseph Campbell (Editora Palas Atenas, 2015). Em 2018, os encontros possuem como proposta promover reflexões em torno do masculino, sobretudo diálogos relacionados à sua presença e representações na atualidade.

A masculinidade no contemporâneo foi o tema proposto para o primeiro encontro, que contou com a fala do psicólogo André Mendes. André estudou durante o mestrado a relação da individuação e a sociedade, e também desenvolveu estudos relacionados às questões de grupos com profissionais do sexo (travestis). A partir do texto O Sistema de valores do grupo local (CAMPBELL, 2013, p. 82-104) e do pensamento do pai da psicologia analítica, Gustav Carl Jung (1875-1961), o convidado apontou a dificuldade de se discutir o tema. Primeiramente, André levanta a questão do que podemos compreender como sendo o masculino, e segundo, o que compreendemos como contemporâneo.

Para o psicólogo, a partir da perspectiva de Campbell, podemos compreender que o masculino é uma construção cultural, ou seja, uma construção inserida em um contexto específico (tempo-espaço). Já em relação ao contemporâneo, o palestrante afirma que a dificuldade em defini-lo está no fato de que nós mesmos estamos inseridos nele, o que influencia a nossa compreensão acerca dos fenômenos ao nosso redor. 

Apesar da complexidade, o convidado afirma que esta é uma temática importante e emergente, pois é frequente em seu consultório homens e mulheres questionarem seus papéis na sociedade, suas identidades de gênero, sua orientação sexual e como exercer o feminino e o masculino no cotidiano. O homem perante as transformações sociais tem questionado qual o seu papel na sociedade e como exercer uma masculinidade que não é mais dada por meio de ritos de passagens.

Utilizando o pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), André problematiza: “Nós podemos estabelecer um conceito para uma série de fenômenos?”, “Podemos chegar a uma definição única do que é o masculino?”. Nietzsche defendia que os conceitos fechados são falsos, pois estes se transformam no decorrer do tempo, portanto para definir conceitos o ser humano deveria utilizar uma linguagem poética, metafórica. Um conceito metafórico ao invés de fechar/limitar serviria para expandir a compreensão acerca dos fenômenos.

Surgem então alguns novos questionamentos: “O que a nossa cultura faz com o masculino?”, “Temos rituais que possibilitam uma construção do masculino?”, e ainda, “Nossa cultura possui rituais?”. O palestrante afirma que apesar de aparentemente em desuso, o ritual é uma experiência importante para os seres humanos e permanece presentes em nosso cotidiano, mesmo que de forma discreta. Seja em um ritual particular de preparar uma sala para estudar, uma formatura ou o réveillon. Os rituais de âmbito coletivo, como as formaturas, são capazes de gerar uma transformação psíquica. André, que também é docente, relata que alunos dos cursos de graduação se sentem muitas vezes inseguros em relação às suas futuras vidas profissionais. Ocorrem casos de alunos que repetem uma disciplina propositalmente por não se sentirem capazes. Entretanto, após vestirem as indumentárias (beca e chapéu) para o ritual de formatura e receberem um canudo (muitas vezes vazio), saem transformados, pois a formatura enquanto ritual é capaz de canalizar a energia psíquica da pessoa, promovendo uma transformação.


Muitas vezes os rituais de passagem não são agradáveis, como as primeiras relações sexuais que os garotos eram obrigados a passar por influência e interferência do pai, tios, primos mais velhos e assim por diante. Na atualidade, entretanto, os papéis do masculino não estão demarcados e dados pela sociedade, não são tão rígidos como antes. Como o psicólogo afirma: “O indivíduo precisa elaborar isso, pois não está dado pelo coletivo”.

Para André, apesar de haver uma busca para expressar as questões do masculino e feminino em homens e mulheres na atualidade, a nossa sociedade não facilita esse processo.

O que a nossa cultura faz com o masculino?
Aberto o debate para os presentes, surgiram questões relacionadas a gênero, transexualidade, a problemática (ou não) de usar banheiro unissex, a grande demanda de casos em consultórios dos psicólogos presentes no encontro e as dificuldades em lidar com tantas possibilidades que a sociedade contemporânea permite relacionadas ao tema.

Ficou constatado entre os presentes que estudos sobre o masculino são pouco divulgados e/ou inexistentes, e que se nos afastarmos do machismo compreenderemos que tanto o masculino quanto o feminino exercem, na visão de Mendes, funções enquanto potência. Ambos se complementam, seja em uma complementaridade exterior (social), seja em uma complementaridade do indivíduo em seu processo de individuação.  Um assunto, sem dúvida, que seguirá palpitante no próximo encontro, a ser realizado em agosto do segundo semestre, em data a ser definida em breve.





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