domingo, 17 de maio de 2015

Um relato do encontro de outono

Malena Contrera, a palestrante de maio de 2015
O mitólogo estadunidense Joseph Campbell (1904-1987) é sempre surpreendente. Você está preparado para trabalhar a parte II da obra As Máscaras de Deus, Mitologia Criativa (Palas Athena, 2010), intitulada A Terra Desolada. Espera-se, portanto, trabalhar temas como o caos nesse mundo desmitologizado contemporâneo ou algo assim. E de repente, você deliciosamente se perde na leitura, porque ela fala de... a maravilhosa lenda de Tristão e Isolda, um marco da literatura da baixa Idade Média. Nessa obra, o ponto de vista do indivíduo torna-se decisivo, contrapondo-se à tradição religiosa ocidental cristã da época, que determinava que aqueles que saíssem da linha arderiam eternamente no fogo do inferno -- algo então entendido de forma bastante literal. Assim, um amante medieval que pede à amada que o aqueça no inverno "e que tudo o mais vá para o inferno" está bem à frente de seu tempo!

Nesse contexto inesperado, a palestra da Profa. Dra. Malena Contrera, do Mestrado e Doutorado em Comunicação da Universidade Paulista, fluiu de forma espirituosa e profunda. Para Malena, a síntese da narrativa de Tristão e Isolda é a de que "em frente a algo que liberta do tempo -- o amor --, a morte não tem poder nenhum".  A terra desolada nesse contexto significaria "tirar do corpo, da experiência da carne, do amor, sua sacralidade". Faria parte, portanto, do período de transição da mitologia matriarcal para a patriarcal, bem simbolizada pelos mitos grego-romanos. As sociedades matriarcais estariam ligadas à Grande Mãe e à Deusa, enquanto às patriarcais ao Herói, o Guerreiro.

  Nesse sentido, o amor cortês "não separa o corpo da alma, da psique. Ele faz essa celebração da vida, que é o que Tristão já fazia antes de conhecer Isolda", diz Malena. 

Ivete Fukimoto e Ivy Ramadan
Para ela, no momento em que se encontra esse tipo de amor Tristão-e-Isolda, o ego "dança". Afinal, "não há transcendência sem entrega". Ainda segundo Malena, "o ego adora esse sentimento de achar que consegue controlar tudo. Nessa híbris (ou descomedimento), se acha um Deus".


O historiador Jorge Miklos
 Contudo, é somente o ego destroçado que pode encontrar sua alma, sua parte sensível. "É esse o sentido simbólico, é por isso que na lenda Tristão chega à Isolda 'podre´, cheirando mal devido a um ferimento que havia sido causado por um veneno que ela própria, a primeira Isolda, havia criado".

Como se lidar com um grande amor, portanto, sem sucumbir a ele ou sair permanentemente destroçado? De acordo com Malena, a lenda de Tristão e Isolda sugere a necessidade de um ego forte, porém flexível. Conseguir fazer isso, claro, é uma questão de "sorte", brinca.

Sara e Irineu Guerrini, que trouxe a série O Poder do Mito para a TV Cultura
Malena citou também o trabalho do psicólogo junguiano James Hillmann (1926-2011), segundo o qual se nós não tivéssemos uma dor seríamos insuportáveis. Nesse sentido, seriam nossos amores e nossas dores que fariam de nós seres humanos plenos em nossa potencial capacidade de amar.


Para finalizar, o pensamento de Campbell sobre o tema: "A Terra Desolada, podemos dizer então, é
Tadeu Rodrigues, nosso fotógrafo
qualquer mundo em que (colocando o problema de maneira pedagógica) a força, não o amor, a doutrinação, não a educação, a autoridade, não a experiência, prevalecem na organização de suas vidas, e onde os mitos e ritos observados e aceitos não guardam, portanto, nenhuma relação com as verdadeiras experiências, necessidades e potencialidades interiores daqueles que os aceitam" (CAMPBELL, 2010, p. 332).

Que vença, portanto, o amor. Agora e sempre!


Por Monica Martinez

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